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Passeio socrático – Frei Betto

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir:

- “Qual dos dois modelos produz felicidade?”

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei:

- “Não foi à aula?”

Ela respondeu: – “Não, tenho aula à tarde”. Comemorei:

- “Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde”.

- “Não”, retrucou ela, “tenho tanta coisa de manhã…”

- “Que tanta coisa?”, perguntei.

- “Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina”, e começou a elencar seu programa de garota robotizada.

Fiquei pensando: – “Que pena, a Daniela não disse: “Tenho aula de meditação!”

Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! – Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: “Como estava o defunto?”. “Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!” Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil – com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é “entretenimento”; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.

Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: “Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá! “O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor.. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, autoestima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade – a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno…. Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald’s…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Estou apenas fazendo um passeio socrático.” Diante de seus olhares espantados, explico: Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.

Frei Betto é frade dominicano e escritor. Dentre sua vasta bibliografia, sugiro os livros Batismo de Sangue e Conversas sobre fé e ciência. Para conhecer a obra completa do autor, vale a pena uma visita ao site www.freibetto.org
Frei Betto
www.freibetto.org

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Simbolismo

A partir de 1880, na França, verifica-se uma reação contra as concepções cientificistas da classe dominante, representadas na literatura pelo fatalismo naturalista e pelo rigor parnasiano. Neste sentido, o Simbolismo surge não apenas como uma estética oposta à literatura (poesia, especificamente) objetiva, plástica e descritiva, mas como uma recusa a todos os valores ideológicos e existenciais da burguesia.

O artista experimenta agora, à maneira dos românticos, um profundo mal-estar na cultura e na realidade. Mergulha então no irracional, fugindo ao mundo proposto pelo racionalismo burguês, e descobrindo neste mergulho um universo estranho de associações de idéias, lembranças sem um significado definido. Universo etéreo e brumoso, de sensações evanescentes que o poeta deve reproduzir através da palavra escrita, se é que existem palavras para exprimi-las. O Naturalismo e o Parnasianismo estão definitivamente mortos.O Simbolismo define-se assim pelo anti-intelectualismo. Propõe a poesia pura, não racionalizada, que use imagens e não conceitos. É uma poesia difícil, hermética, misteriosa, que destrói a poética tradicional.

Características do Simbolismo

  • O inconsciente coletivo e a busca do passado: o simbolista se apropria do passado, pois se julga depositário das vivências históricas do povo a que pertence.
  • A sugestão predomina sobre a descrição: enquanto o autor parnasiano descreve, o simbolista sugere. As imagens produzidas nessa estética são vagas, diluídas, suaves. Ocorre um registro impressionista do mundo real: não importa como a realidade é, mas os efeitos que ela causa na sensibilidade do artista.
  • A “torre de marfim” da solidão: a subjetividade excessiva do Simbolismo leve a um estado de solidão e isolamento. O simbolismo cria sua “torre de marfim”, onde se refugia do mundo real e efetiva a busca de si mesmo.
  • Misticismo: o simbolista mantém uma atitude mística perante a vida: busca o inatingível, o oculto e o misterioso para justificar a existência.
  • Inovação no uso das letras maiúsculas: o autor simbolista usa maiúsculas em substantivos comuns com objetivo de dar força emocional a eles.
  • Musicalidade: os efeitos sonoros foram amplamente explorados pelo simbolistas. Entre eles predominam a aliteração (repetição de sons consonantais), a assonância (repetição de sons vocálicos) e a reiteração (repetição de palavras ou versos inteiros)
  • Hermetismo: a poesia simbolista é hermética, fechada. O acesso à sua compreensão integral é difícil, exigindo sensibilidade e intuição do leitor.
  • Imagens noturnas: o mundo íntimo do simbolista pode ser metaforizado por imagens noturnas, por vezes mórbidas: a sombra, o negro, a morte, a névoa etc.
  • Sinestesias: o artista simbolista faz inusitadas combinações entre sons, cores e perfumes para expressar imagens e sensações. (Há perfumes frescos como carnes de crianças / Doces como oboés, verdes como pradarias.

O SIMBOLISMO NA EUROPA E NO BRASIL

               No Brasil, o simbolismo começa em 1893 com a publicação de dois livros: “Missal” e “Broquéis”

               (poesia) ambos de Cruz e Sousa. Estende-se até o ano de 1922, data da semana de Arte

               Moderna. O início do simbolismo não pode,no entanto, ser identificado com o término da escola antecedente, o Realismo. Na realidade, no final do século XIX e início do século XX, três tendências caminhavam paralelas: o Realismo e suas manifestações; o Simbolismo, à margem da literatura acadêmica da época; e o pré-Modernismo, com o aparecimento de alguns autores como Euclides da Cunha e Lima Barreto. Só um movimento com a amplitude da Semana da Arte Moderna poderia neutralizar todas essas estéticas e traçar novos e definiti- vos rumos para a nossa literatura.

               Na Europa, o poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) é considerado precursor do simbolismo por ter publicado, em 1857, As Flores do Mal, livro que já exibe traços do movimento. Mas é só em 1881 que a nova manifestação é rotulada. O escritor francês Paul Bourget (1852-1935) chama-a de decadentismo. O nome é substituído por simbolismo em manifesto publicado em 1886 no suplemento Figaro Littéraire.

               O simbolismo manifesta-se na poesia. As obras buscam sugerir os objetos com símbolos, como ao usar a cruz para falar de sofrimento. Os versos exploram a sonoridade e a visualidade. Também rejeita as formas rígidas do parnasianismo, movimento de que é contemporâneo. Apesar de várias de suas bases coincidirem com as do romantismo, difere dele pela expressão da subjetividade sem sentimentalismo. Considera que só é real aquilo que está na consciência individual do poeta. A partir da noção de que a vida é misteriosa e inexplicável, os simbolistas a representam de modo vago, obscuro e até ininteligível.

               Os principais expoentes na França são Paul Verlaine (1844-1896), autor de Outrora e Agora, Rimbaud (1854-1891), que escreve Iluminations, e Stéphane Mallarmé (1842-1898), autor de A Tarde de um Fauno, musicada por Claude Debussy (1862-1918). Em Portugal, o marco do simbolismo é a publicação em 1890 de Oaristos, de Eugênio de Castro (1869-1944), cujo prefácio apresenta os ideais do movimento. Outros representantes são Antônio Nobre (1867-1900), que escreve Só, e Camilo Pessanha (1867-1926), autor de Clepsidra.

O Momento Histórico

               Durante o século XIX a Europa era, em quase sua totalidade, Imperialista. A Europa estava em pleno expansionismo em direção aos países da África, Ásia e América Latina. E em pouco tempo, 3/5 das terras do globo passaram para o domínio europeu. E, nesta mesma época, havia a política das alianças, liderada pela Inglaterra de um lado e pela Alemanha do outro. E em função disto, a Europa começou a investir no crescimento bélico de suas nações, estando eles às vésperas da primeira guerra mundial. Para essa crescente militarização, os historiadores dão o nome de “Paz Armada”.

               Esse era o contexto histórico onde nasceu o Simbolismo.

               Características das Escola

               – subjetividade

               – religiosidade

               – busca da essência humana : a alma

               – ambigüidade, conotação, sentido figurado

               – poesia hermética, de difícil entendimento

               – busca da musicalidade – exploração da sonoridade das palavras

               – “É preciso sentir, e não raciocinar”

               – Sinestesias: cruzamento entre impressões sensoriais

               – Aliterações: repetição de fonemas

               – temática: sonho, mistério, morte

               – a poesia atinge o leitor por inteiro: todos os sentidos são aguçados

Observação: A observação aqui é a mesma presente no post sobre Parnasianismo.

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Parnasianismo

O PARNASIANISMO floresceu no Brasil a partir de 1880, constituindo uma “tendência acadêmica ou academicista, ligada ao processo de consolidação da vida literária brasileira”. Nesta mesma época, a oficialização do escritor foi fortalecida por uma geração de intelectuais influenciados por filosofias de cunho materialista.

Quando se refere a uma “literatura academicista”, na verdade isto quer dizer uma literatura “oficial”, comprometida com a ordem vigente. Assim foi o movimento parnasiano, um movimento que tem em comum com o Realismo-Naturalismo unicamente a preocupação formal. Centralizado na poesia, influenciou, entretanto, alguns prosadores, como por exemplo Coelho Neto.

OLAVO BILAC, principal representante da poesia parnasiana brasileira, mostra, como se deve escrever um poema parnasiano e como se deve colocar diante do texto o poeta: primeiro, o caráter racionalista do ato de criar, a preocupação com as minúcias, os detalhes, a perfeição enfim, dentro dos pressupostos da tradição clássica, segundo a qual arte é mimese, imitação.

A obsessão pela forma constitui, portanto, o principal traço do Parnasianismo, por isso chamado de “arte pela arte”. Em segundo lugar, há a posição do poeta como um artesão. Polir, aperfeiçoar, “limar” o verso de modo a torná-lo “claro como o cristal” e perfeito “como a pedra do ourives”, transformam, enfim, a poesia num produto de precisão técnica e o poeta no técnico que a executa.

“Em linhas gerais, são estas as preocupações básicas da poesia parnasiana: uma poesia que ao desprezar o assunto em prol da forma, ao separar sujeito e objeto, assume um objetivismo sem precedentes em toda a história da literatura e assim aliena-se da vida, encastela-se no mundo clássico que pretende imitar, fazendo do academicismo elitista, e portanto conservador, o seu principal atributo, a sua principal aliança com o racionalismo burguês, tão criticados pelos poetas modernistas”.

Em contraposição ao Parnasianismo, O SIMBOLISMO procura reatar as relações entre vida e poesia, sujeito e objeto. E o faz elaborando textos que não desdenham a preocupação formal e a precisão vocabular parnasianas, mas que ambas acrescentam a negação da postura racional, objetiva, substituída pelo desejo de transcendência, pela busca de completude espiritual só vislumbrada num mundo metafísico, místico, inconsciente.

As palavras, então, não precisam ter significados exatos neste tipo de poesia. Ao invés disso, elas constituem “símbolos”, imagens sensoriais, especialmente auditivas, musicais, que, combinadas com imagens visuais, olfativas, expressam a tentativa de unir um só, todos os sentidos, e de, através deles, penetrar na essência de nossa humanidade, de nossa alma violentada por um racionalismo, um objetivismo que oprime, muitas vezes sem se perceber.

Trata-se, na verdade, de um apelo ao inconsciente, às camadas mais profundas da mente humana – do “eu profundo” – com a finalidade de resgatar o homem do materialismo desenfreado em que vive. Neste sentido a poesia simbolista anuncia a decadência, a falência dos valores burgueses e a busca de novas realidades, invisíveis e interiores, que vão configurar, dentre outros elementos, a Modernidade.

Observação: Este material não é de minha autoria, mas recebido via e-mail. De qualquer forma, é um resumão bem montado, que vai ajudá-los para a prova.

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Romantismo

O gosto pela cultura clássica, que se inicia no século XVI, com o Renascimento, perdura até o século XVIII. Com o tempo, ele foi se restringindo ao público aristocrata, formado pela nobreza e pelo alto clero. As revoluções burguesas mudam o perfil da sociedade euopeia no início do Século XIX. Com a ascensão da burguesia ao poder na França, em 1789, surge a necessidade de uma arte sintonizada com aquele contexto social e com a sensibilidade do novo público que se formava. Liderando transformações sociais e econômicas, a burguesia ganha poder política e passa a buscar uma arte na qual possa reconhcer-se. Quem vai suprir este anseio deste novo estrato social é o Romantismo.

Conceito

O Romantismo foi uma corrente artística literária e filosófica. Um modo de vida, maneira de sentir e pensar. Foi também um movimento cultural que exaltou o instinto e privilegiou as emoções contra a razão. Assim, surgiu em parte como reação ao  racionalismo Neoclássico, que se baseava nos ideais de ordem, equilíbrio e harmonia. Portanto, o Romantismo tem uma visão de mundo contrária ao racionalismo.

Inicialmente apenas uma atitude, um estado de espírito, o Romantismo toma mais tarde a forma de um movimento, e o espírito romântico passa a designar toda uma visão de mundo centrada no indivíduo. Por esta razão, se compararmos as características iniciais com as finais deste movimento, encontraremos diferenças gigantescas entre elas, pois, embora tenha uma duração bem definida, o Romantismo passa por diferentes momentos.

Os autores românticos voltam cada vez mais para si mesmos,  retratando o drama humano, amores trágicos – com algumas exceções -, ideais e utopias, que levam ao desejo de escapismo, de solidão, sofrimento, morte, sendo esta sublimada em alguns momentos pelos poetas , sobretudo.

Características do Romantismo

  • Individualismo e o subjetivismo: em oposição ao objetivismo dos clássicos, o que faz com que os românticos vejam o mundo unicamente por meio de seu mundo interior. A 1ª pessoa (eu) é constante na poesia romântica.
  • O nacionalismo: ao qual se relacionam: o culto a da idade me dia pelos europeus, na qual se encontravam elementos formadores da nacionalidade de cada povo: os heróis das cruzadas, as damas, os monges, as lendas, as crenças e tradições.
  • O indianismo: que no Brasil, devido à ausência de um passado medieval, foi um dos elementos da sustentação do sentimento nacionalista, acentuado com a proximidade com a Independência.
  • O culto da natureza: que se supervalorizava, não só constitui um refúgio não contaminado pela sociedade, como também é uma forma de exaltação da terra brasileira. Ao contrário do Arcadismo, em que a natureza é apenas decorativa, para os românticos ela é fonte de inspiração e está intimamente vinculada aos sentimentos do poeta.
  • Evasão ou escapismo: resultante do conflito do eu com a realidade, o que leva o romântico a evadir-se na aspiração de um outro mundo-situado no tempo e no espaço ( paisagens novas, primitivas ou exóticas) -, onde ele não encontre asa dificuldades da realidade a que está vinculado. Resultam daí:
  1. saudosismo(da infância, do passado, da pátria, dos entes queridos);
  2. o sonho (que permite a criação de um mundo pessoal e idealizado);
  3. a consciência da solidão (resultante de uma inadaptação ao mundo e da crença de que é um incompreendido);
  4. o exagero, isto é, apelo aos extremos e excesso de figuras de linguagem.
  • O exagero, somado à instabilidade e à ânsia de evasão, provocou o chamado mal-do-século, expressão que caracterizava o estado de espírito de vários românticos que se entregavam a uma excessiva melancolia e solidão e a um grande pessimismo que conduziu à exaltação da morte.
  • O sobrenatural, o mórbido, a noite e o mistério da existência estão presentes nos textos dos poetas da geração do mal-do-século.
  • A idealização da mulher e do amor: somando espiritualismo e temperamento sonhador, o poeta romântico reveste a mulher de uma aura angelical, retratando-a como figura poderosa e inacessível. Porém, apesar do espiritualismo, a poesia romântica reflete muitas vezes o sensualismo bem material na descrição feminina.

Manifestação Romântica

Arquitetura

Mais ligado à recuperação de formas artísticas medievais, acompanhada pelo gosto pelo exótico contido nas culturas orientais, favoreceu a revivência e a mistura de vários estilos, como o românico, o gótico, o bizantino, o chinês ou o árabe. A arquitetura do século XIX apresentou um outro vasto campo de desenvolvimento, proporcionado pelos novos materiais de construção surgidos com a industrialização, como o ferro e o vidro.

Pintura

Utilizou  temas dramático-sentimentais inspirados pela literatura e pela História. Procurou, mais do que os valores de arte, os efeitos emotivos, destacando principalmente a pintura histórica e em menos grau a pintura sagrada. As cores  libertaram-se e fortaleceram-se, dando a impressão, às vezes, de serem mais importantes que o próprio conteúdo da obra. O romantismo foi marcado também pelo amor à natureza livre e autêntica, pela aquisição de uma sensibilidade poética pela paisagem, valorizada pela profusão de cores, refletindo assim, o estado de espírito do autor.

O quadro A Liberdade conduzindo o povo, de Eugène Delacroix revela de forma clara o entrelaçamento entre a burguesia e história. Vale salientar que Delacroix não é um pintor “descritivo” e sim propriamente “narrativo”; como outros românticos, retrata episódios históricos contemporâneos, carregados de dramaticidade e de um certo caráter épico.

Observe as figuras: em primeiro plano, parte inferior, acentuando as linhas horizontais. Na parte central destaca-se a figura da mulher liderando os revoltosos e predominam as linhas verticais.

Observe a vivacidade das cores, a luminosidade e os contrastes que acentuam o tom emocional do quadro.

Escultura

O Desterrado - Soares dos Reis

A escultura romântica era sentimental, fazia apelo aos sentidos e caracterizava-se pela sua energia e dinamismo. Como o neoclássico, este estilo continuou a dar importância a monumentos funerários, estátuas equestres, motivos heróicos e homenagens a reis e militares. Desta forma, ela não conheceu qualidade estética nem projeção idênticas à da pintura da mesma época.

 

Música

Surge uma maior liberdade e expressividade na música,  “individualista” e “subjetiva”.

O músico romântico procurava afirma-se como um artista autônomo, deixando de se submeter a patrões ricos, o que garantia uma maior liberdade de criação. As primeiras evidências do romantismo na música aparecem com Beethoven. As suas sinfonias, a partir da terceira, revelam uma música com temática profundamente pessoal e interiorizada.

Outros compositores como Chopin, Liszt, Grieg e Brahms levaram ainda mais longe o ideal romântico de Beethoven, deixando o rigor formal do Classicismo para escreverem músicas mais de acordo com suas emoções.

Na ópera, destacam-se compositores como Verdi, que procurou escrever óperas com conteúdo épico ou patriótico, e se baseou em histórias de amor; e Wagner, que invocava histórias mitológicas germânicas. Ainda mais tarde na Itália o romantismo na ópera desenvolve-se  mais com Puccini.

Literatura

 

O Romantismo surge na literatura quando os escritores trocam o mecenato aristocrático pelo editor, precisando assim cativar um público leitor. Esse público estará entre os pequenos burgueses, que não compreende os valores literários clássicos e apreciam mais a emoção que a subtileza, destaca-se assim, a célebre frase de Bocage  “a poesia desce do salão a praça”.

O Romantismo renega as formas rígidas da literatura, como versos de métrica exata. O romance torna-se o gênero narrativo preferencial, em oposição a epopeia. Dois dos aspectos fundamentais da temática romântica são o historicismo e o individualismo.

Assim, busca-se resgates históricos apaixonados e saudosos ou observações sobre o momento histórico que se atravessava naquela altura.

O individualismo traz consigo o culto do egocentrismo e da autoanálise, melancolia e pessimismo,  (mal do século).

O romantismo é um movimento que vai contra o avanço da modernidade em termos da intensa racionalização e mecanização. É uma crítica à perda das perspectivas que fogem àquelas correlacionadas à razão.

Ainda estudaremos um pouco mais sobre o Romantismo, mas nos ateremos a Portugal e Brasil. Por isso, fica como sugestão os livros O Vento dos Morros Uivantes, de Emile Bronte, Os Miseráveis e Os Trabalhadores do Mar, ambos de Victor Hugo, além de Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. São obras que retratam bem o pensamento e os sentimentos românticos fora do eixo Luso-brasileiro.

Em se tratando de filmes, sugiro Minha Amada Imortal, que fala sobre Beethoven, e Tristão e Isolda, no qual percebemos com clareza a idealização do amor e os sacrifícios feitos em nome dele.

Boa leitura e bons estudos.

Referências

OLIVEIRA, Cleni Belleze de. Arte Literária: Portugal/Brasil. São Paulo: Moderna, 1999.

DE NICOLA, José. Português: ensino médio. Vol. 2. São Paulo: Scipione, 2005.

CEREJA, William Roberto. Português: linguagens. Vol. 2: ensino médio. São Paulo: Atual, 2005.

ABAURRE, Maria Luiza M. Literatura Brasileira: tempos, leitores e leituras. Vol. Único. São Paulo: Moderna, 2005.

http://www.historiadaarte.com.br/arteromantica.html Acesso em: 06 de mar. de 2011.

http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/romantismo/romantismo-1.php Acesso em 06 de mar de 2011.

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Literatura

O homem primitivo não se via separado da natureza, mas integrado a ela. Ao tomar consciência de si, ele teve a necessidade de manifestar seus sentimentos em relação ao mundo, a sua percepção do meio em que vivia. Esta manifestação se deu na Arte, em suas diferentes formas, como a Arquitetura, a Música, a Pintura, entre outras. A que vamos estudar, ainda que de forma superficial, será a Arte Literária.

Ezra Pound, em seu livro ABC da Literatura, diz que “Um povo que cresce habituado à má literatura é um povo que está em vias de perder o pulso de seu país e de si próprio”. Além dessa função social da literatura, podemos afirmar também que ela nos faz transcender nossa existência, levando-nos a compreender melhor a nós mesmos e ao outro, ou seja, sorrir, chorar, criar expectativas, conhecer intimamente e viver os sentimentos e sensações dos personagens que estão se desnudando a nós a cada linha lida e a cada página virada, sobretudo porque “na vida real, jamais conheceremos tantas pessoas como através da leitura (…)”, como diz Harold Bloom, no prefácio do seu livro Como e Por que Ler.

Por ser escrita em diferentes épocas, expressando o pensamento de cada momento histórico, a literatura nos ajuda também a entender a História da Humanidade e a nossa própria história. Por meio das palavras, voltamos ao passado, revivemos ou recriamos grandes acontecimentos, conhecemos pessoas importantes em cada momento da História, viajamos em muitos lugares, recriamos a realidade ou criamos mundos imaginários, onde nos escondemos e, ao mesmo tempo, nos encontramos.

Por tudo isso, a literatura não pode ser considerada apenas mais uma matéria a ser estudada na escola, mas algo que nos faz pensar em nossa existência, que nos leva a sentirmo-nos estranhos a nós mesmos, mas nos encantando e, simultaneamente, nos transformando.

Por fim, sugiro o livro Uma História da Leitura, de Alberto Manguel, que trata de forma instigante a história dos livros e seu lugar na história humana.

Sugiro também o filme, Sociedade dos Poetas Mortos, que, além de uma histórica bacana, trata também de como a literatura pode ser sinônimo de liberdade, de fantasia, de existência.

Um forte abraço.

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